A longa viagem a um pequeno planeta hostil é, resumidamente, sobre a tripulação de uma nave espacial que trabalha construindo túneis, digamos, não convencionais pelo universo. As personagens são de espécies e planetas diferentes. São apresentadas de uma maneira muito leve, como quando a gente conhece alguém e, aos poucos, vai descobrindo detalhes sobre a história de vida, os hábitos, os gostos. Fiquei tão afeiçoada a cada tripulante que batia uma curiosidade a cada novo planeta onde estacionavam: o que será que vai acontecer agora? Sentia-me parte da tripulação.

Eu diria que são personagens antropológicos. A noção do outro e da diversidade é marcante. Todos os seres são bem descritos, os detalhes transbordam: como se relacionam, quais significados carregam para a vida. Senti que é uma experiência de conhecer o outro sob a óptica do outro. É a personagem da espécie que apresenta a própria espécie.

Quando um sapiente não entende o outro, surge uma pergunta, algo do tipo: por que você faz o que faz? Achei muito carinhosa a maneira como a história conduz sobre sentir curiosidade por aquele que é diferente de mim.

A história começa pela chegada da humana Rosemary, a nova funcionária da nave. Embora a história de vida seja apresentada logo de cara, demorou várias páginas para descobrir como era a aparência física dela. Enquanto os outros seres são descritos às minúcias, os humanos me pareceram um pouco sem graça. Veja bem, não acho que isso seja um ponto negativo, pelo contrário, refleti sobre como os humanos se acham tão diferentes, mas numa galáxia com tamanha diversidade, podemos ser todos muito iguais. Algumas espécies até consideram os humanos pudicos e limitados. Só me dei conta de que imaginava a personagem da Rosemary sem me importar com a forma física quando, enfim, um detalhe foi apresentado.

“Havia um relógio acima da janela contando silenciosamente os minutos e as horas, porém, dentro da subcamada, não passavam de meros números para Rosemary. Várias vezes, ela teve a impressão de que haviam acabado de chegar, para, no momento seguinte, se sentir como se estivessem ali há uma eternidade”.

Ficção científica com abordagens sobre gênero, decisão sobre o próprio corpo, religião, maternidade, conceito de doença e cura, legalidade e ilegalidade, ser orgânico e biológico, ser clonado ou artificial. Parecem até assuntos muito complicados, mas surgem em diálogos no cotidiano dos espaciais, então as questões culturais e étnicas desabrocham de uma forma que não é chata. No caso do gênero, por exemplo, há personagens com gêneros fluidos, ou seja, um mesmo ser que alterna o gênero em diferente fases da vida.

“De certa forma, a ideia de um estoque compartilhado e genes que flutuam através da galáxia é muito mais fácil de aceitar do que a noção assustadora de que talvez nenhum de nós tenha a capacidade intelectual de entender com a vida de fato funciona”.

Em meio à diversidade também existe a xenofobia, discussão de direitos e seres que se acham os donos da galáxia. Qualquer mera semelhança com a Terra não é coincidência. É irônico perceber que fora da ficção, os humanos ainda não se identificam como membros da mesma espécie! Baseiam-se na desavença e segregação. Nem se quer conseguem aceitar outras espécies – e olha que nem estou falando de alienígenas – ignorando o direito que animais e plantas têm coexistir no mesmo planeta.

Becky Chambers, obrigada por um livro tão profundo em que ganhei de brinde uma viagem para as estrelas.