Conheci a Ana Holanda através de um TEDx. Desde então não esqueço: “As histórias mais poderosas moram dentro da gente, no ordinário”. Não precisamos esperar que coisas extraordinárias aconteçam para contar uma história. A viagem dos sonhos é, na verdade, a própria vida.

Recomendaria o livro para todo mundo que quer olhar para as coisas que faz adicionando um pouquinho mais de alma. O caminho nesse caso é tecido pela escrita, mas poderia muito bem ser uma receita, como a mesma autora já temperou bem no livro Minha mãe fazia.

Embora nem todos sejam escritores, todos escrevem. Bilhete, mensagem, legenda na internet. Às vezes eu brinco e digo que sou “escritora de blog e poeta de instagram”, pois foram nesses espaços que o meu amor pela escrita encontrou uma maneira de brotar tal qual semente que estava adormecida no frio só esperando o calor cutucar.

O livro traz histórias, exemplos e exercícios, mas não pense que é um livro com técnicas prontas e quadradinhas. É sobre encontrar seu caminho pelas palavras, incluir você e o outro.

Ana diz que a vida cotidiana está atrelada às funções, assim como na formação escolar e acadêmica somos condicionados à escrita em que o sentir não se encontra com a palavra. Vamos deixar de acreditar que sentir é inútil? Há muitas coisas que não escrevemos (ou falamos) porque não parecem ser importantes. Desculpa para não sentir? Desconfie.

Gosto quando ela diz que contar nossa história nos fortalece. Porque sinto isso quando leio algo que causa aquela coceira de sentimentos. Porque percebo encontro alguém que me conta suas histórias e fico agradecida por ouvir e participar daquele momento.

“Vergonha deveríamos ter de viver pelas bordas, sem experimentar a intensidade da vida”.

Muitas vezes sinto receio de publicar aquilo que escrevo. Então a Ana chega e me conta que aquele texto que dá vergonha também sou eu. Quando escolho a profundidade e me abro para enxergar além dos conceitos batidos e estatísticas.

Tenho muita vontade de fazer o curso de escrita afetuosa com a Ana, mas enquanto não crio a oportunidade, não deixo que o tédio me abrace: sigo tentando colocar um pouquinho mais de mim, das experiências, em cada texto.

Realizo-me na escrita desde que comecei a amontoar diários na adolescência. Muitas vezes duvidei de mim. Muitos textos foram rasgados ou deletados sem chegar à luz do dia. Hoje sei que a escrita não vai desparecer e para isso preciso continuar a construí-la no dia-a-dia enquanto observo a vida que não espera e transborda aos detalhes.

Gosto de escrever parágrafos. São suficientes porque não tem pretensão de tema ou comprimento. Encontrei este texto que foi escrito para mim mesma num dos muitos momentos de auto-sabotagem:

Seja personagem. Seja Valquíria, Vanessa e Joana. Escreva sobre a infância. Escreva sobre a adolescência. Escreva sobre os vinte e poucos anos da vida adulta. Aproveite as personagens para escrever sem vergonha. Exponha as cicatrizes. Ria das inconsequências. Brinde à vida. Você não quer dar lição de moral. Você não quer dizer olha-eu-fiz-isso. Você só quer mostrar como a vida simplesmente acontece. Seja. Escreva sobre assuntos que você vive. Olhe para o cotidiano com todas as emoções. Permitidas e proibidas. Possíveis e impossíveis. Não há limites para a escrita. Escrever todo dia não precisa ser escrever sobre o dia todo. Errou, rabiscou. Não rasgue a folha. Não culpe nem julgue escritas passadas. Você não é só aquilo que escreve. Escrita não é obrigação, é prazer. Você tem muitas faces: liberte-se! Não tema ser vulnerável. O extraordinário está no ordinário. Não revise, continue escrevendo.

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