Foi preciso atravessar dois estados para perceber que uma amizade partiu.

As estradas sinuosas são convidativas para ir além. Saber o que está depois de cada placa. Segurar o xixi até o próximo posto de gasolina. Rir da contagem regressiva nas placas que antecedem as curvas. Aceitar que a neblina não tem fim, mesmo sabendo que em algum momento ela acaba. Descobrir que a sua pergunta essencial é sobre a origem da vida. Ouvir todas as playlists com vozes femininas e melodias suaves.

Chegar antes do horário que foi imaginado. Puxar conversa até às três horas da manhã. Levar a coelha para passear no gramado e ser cumprimentada pelos vizinhos que acordam para ir trabalhar enquanto você começa a se sentir de férias e pouco preocupada com o relógio.

Tomar café da manhã todo dia em um novo lugar. Tombar na areia das dunas para se batizar numa cidade completamente desconhecida.

Ser recebida na casa de temporada por uma anfitriã muito simpática que diz “bem bom, sabe” a cada dez palavras. Descobrir que a proprietária da casa é musicista e esotérica.

Desejar que ali fosse a sua casa, mesmo que com a passagem dos dias se vá descobrindo os improvisos dos quais são feitos os detalhes dos cômodos. Assim como toda casa. Questionar-se sobre porquê as chaves dobram. Almoçar uma refeição caseira coberta de queijo e amigos. Amar a vista da Lagoa da Conceição. Balançar nas redes da varanda.

Preparar-se para uma trilha que não vai acontecer. Descobrir o sul da ilha. Afunilar nas ruas que parecem não ter fim enquanto são espremidas pelas montanhas. Caminhar pelo bairro da Armação. Notar a morbidez nos ossos de baleia que decoram os jardins das casas. Ouvir as ondas quebrando no fim do caminho. Atravessar a ponte e sentar numa pedra só para escutar o mar.

Por mais que se tente conversar, é sempre o mar que dá a última palavra.

Exvotos e oferendas em frente a pedra de Iemanjá. Casais. Amigos. Famílias. Pessoas acompanhadas delas mesmas. Redes de pescadores debruçadas ao chão. Pôr-do-Sol num bar cheio de papeizinhos até onde a vista alcança.

Acender a lareira três ou mais vezes. Lembrar que o fogo foi primordial para a humanidade, mas até hoje não sabemos como manter aceso. Conversar em inglês. Conversar em português. Conversar até pegar no sono enquanto a madeira em brasa estrala e se transforma em cinza.

Aceitar o imprevisto no dia seguinte.

Receber a notícia de que o mar está em ressaca e nenhum barquinho vai sair. Mudar os planos. Observar os surfistas. Caminhar num projeto sobre conscientização da vida marinha. Ver enormes tartarugas. Parar em frente aos painéis informativos e refletir sobre a estupidez da humanidade.

Caminhar em ruas que não passam carros. Colecionar na memória os graffitis coloridos pelos muros. Chegar até uma pedra enorme de frente ao mar. Deitar como se pudesse dormir por horas. Encarar o centro e a urbanidade dos contrastes. Comer e beber no Mercado Municipal. Assistir França contra Bélgica na semi-final.

Descobrir as praias do norte. Compreender que nem sempre poder aquisitivo é sinônimo de esnobismo. O mar se desmancha na areia tão livre como em outro lugar. Cair na água fria. Apresentar em espanhol a coelha de estimação aos turistas argentinos.

Afundar em dunas altas. Ver a areia ser desenhada pelo vento. Conhecer um toque português da ilha. Despedir-se do mar na paisagem dos barcos de pescadores. Tomar drinks num bar de luz baixa onde sua amiga trabalha. Notar que a viagem passou tão rápido que parece não ter acontecido.

Não ter completado nem dez por cento daquilo que se desejou fazer, mas se sentir bem porque foi acolhida e abraçada pelo inesperado.