Prepararia um cappuccino só para lembrar do gosto de baunilha acanelada.

Mudaria a ordem do café da manhã para transformar o dia inteiro numa única refeição. Pegaria um sonho de padaria para sujar a roupa de açúcar. Não lembraria de escovar os dentes de propósito. Ouviria os pássaros das seis horas da manhã. Talvez acordasse mais cedo só para ver o nascer do Sol.

Escreveria poemas esperançosos pela manhã, crônicas realistas após o meio-dia e cartas de desabafo ao anoitecer. Escutaria músicas da década de 1980 para dançar um baile solitário na sala da casa. Imaginaria que eu ainda tenho muito para viver e que acabei de encontrar uma placa escrito “liberdade” ao lado da minha cama.

Tudo seria possível enquanto estivesse dentro das meias que, nessa altura, estariam encardidas pela poeira da casa.

Não me preocuparia com o primeiro amor. Nem com o segundo ou terceiro. Naquele dia não sairia de casa e perderia a noção de que o mundo é tão maior. Lembraria de não pentear o cabelo e amarraria coque com o laço. Ainda assim me sentiria bonita. A beleza que a criança sente ainda cedo. A beleza de gostar sem se perguntar porquê.

Não assistiria televisão nem ligaria o computador. Apenas apreciaria a casa vazia. O horário que ainda ninguém chegou. O minuto antes de algo acontecer. Talvez fosse até o jardim, armaria a rede para balançar sem culpa.

Um dia para não ter idade ou compromisso. Não que a vida andasse dura, mas a maciez das meias não deixaria engessar o tempo, nem a idade, nem a juventude.

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