Quando eu ainda não sabia que chamavam de interior o lugar que eu nasci, havia um pé de limão no quintal. Todas as casas tinham pequenas hortas e árvores frutíferas. As casas eram feitas de alvenaria com tijolos à vista, decoradas com roseiras, pés de couve, moitas de hortelã e chumaços de salsinha.

Como criança curiosa cresci comendo trevos, brincando de fazer receita com barro. Os brinquedos mais marcantes da minha infância foram um carrinho-de-boi que eu comprei na feira com meus pais e um boneco cabeça-de-limão que eu chamava de Liminho.

Andar descalça, ficar suja, brincar sozinha inventando histórias, pular corda, comer pastel na feira. São infinitas as lembranças da infância e não há nenhuma delas que não esteja arraigada ao interior.

Havia trem na minha cidade. Uma vez passeei com a minha vó. Hoje sobrou apenas o transporte para cargas. De madrugada, quando não há mais nenhum ruído, ainda consigo ouvir o apito distante.

Se sussurrar a palavra INTERIOR e fechar os olhos a primeira imagem que vem à tona será de uma árvore imponente e solitária no pasto.

Escrevo essas lembranças sob a vibração do voo de um marimbondo, as cigarras em plena vicissitude, o céu azul quase sem nuvem. O céu de quase toda cidade, mas que só percebo no interior.

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